QUEM PRECISA

A abordagem de Integração Sensorial de Ayres foi originalmente projetada para crianças em idade pré-escolar e escolar, mas seus conceitos podem ser aplicáveis a indivíduos mais jovens ou mais velhos.

          A Integração Sensorial de Ayres destina-se a ajudar pessoas com dificuldades de modular, regular, discriminar, coordenar e/ou organizar as sensações de forma adequada.

          Crianças com diagnósticos de autismo, TDAH, dificuldade de aprendizagem, distúrbios da fala e linguagem, dentre outras, geralmente apresentam problemas sensoriais como: atividades sensoriais incomuns, déficit motor visual e na construção visual, déficits no processamento vestibular-proprioceptivo, dificuldade postural e na coordenação motora, déficits no processamento somatosensorial e somatodispraxia. E assim, são indicadas para a intervenção de Integração Sensorial de Ayres.

          A partir de avaliações estruturadas e não-estruturadas de funções sensoriais, motoras e de práxis, o profissional devidamente qualificado identifica os problemas de Integração Sensorial e os melhores candidatos para a intervenção.

AVALIAÇÃO

Sensory Integration and Praxis Test - SIPT

 

            O SIPT consiste em uma avaliação padronizada da abordagem de Integração Sensorial de Ayres que reúne 17 testes fundamentados teoricamente por pesquisas científicas desde os anos 60. Esta avaliação é produto de mais de 30 anos de investigações e prática clínica da terapeuta ocupacional Jean Ayres sobre a Integração Sensorial e as Disfunções do Processamento Sensorial.

            O SIPT nos permite avaliar e expressa em detalhes, resultados quantitativos e qualitativos de diagnósticos dos distúrbios de integração sensorial e práxis. A aplicação e interpretação dos resultados só pode ser realizada por um terapeuta ocupacional com formação específica para o SIPT através da Certificação completa em Integração Sensorial (VIDE informações sobre a Certificação no Brasil). Os resultados desta avaliação descrevem as evidências do diagnóstico de disfunções do processamento sensorial e favorece ao terapeuta e sua equipe, o direcionamento do tratamento e orientações necessárias à família e à escola.

            É válido esclarecer que o SIPT não oferece medidas de inteligência ou do desempenho acadêmico de uma criança mas, é um método padronizado para avaliar a práxis humana e suas habilidades fundamentais, como os sistemas tátil, vestibular e proprioceptivo, os quais apresentam relações significativas na aprendizagem e no comportamento.

            Sua aplicação é indicada para crianças de 4 a 8 anos e 11 meses e ele pode ser utilizado em conjunto com outras avaliações de Integração Sensorial como Observações Clínicas, Perfil Sensorial e Sensory Processing Measure (SPM). Além disso, o processo de avaliação deve ser enriquecido com observações livres, histórico do paciente e entrevistas com a família.

            O SIPT é composto por 17 testes organizados em quatro categorias:

                         

1. Percepção Visual Motora Livre

Os testes desta sessão avaliam a habilidade de perceber e discriminar visualmente a forma e o espaço sem envolver a coordenação motora. Os testes nos possibilitam também avaliar qual a mão que a criança usa e se cruza a linha média do corpo de forma espontânea ou tende a usar apenas um lado do seu corpo.

 

2. Somatosensorial

Os testes desta sessão avaliam percepção muscular, tátil e das articulações.  Nos testes somatosensorial as crianças são convidadas a "sentir" ao invés de "ver".

 

3. Praxis

A habilidade prática é avaliada de seis maneiras diferentes: interpretar verbalmente instruções e assumir determinadas posições; habilidade de copiar modelos simples em representação dimensional; habilidades constitucionais (avaliação da forma visual e percepção de espaço). Imitação de posturas corporais, movimentos e posição oral: de mandíbula, língua e lábios. E por último, imitação de movimentos seriados de braços e mãos.

 

4. Sensório – motor

Quatro testes sensório - motores que envolvem a integração sensorial estão incluídos no SIPT. O primeiro é a coordenação bilateral (habilidade de coordenar os dois lados do corpo), equilíbrio estático e dinâmico, precisão motora (avalia a coordenação olho-mão, capacidade prática, percepção visual e coordenação motora) e finalmente, o Nistagmo Pós Rotatório. Este, mede a duração dos movimentos reflexos do olhos após a rotação do corpo e é especifico para identificar como o sistema nervoso está integrando sensações do sistema vestibular.

 

Abaixo, os 17 testes que são aplicados e analisados no SIPT:

 

1. Visualização Espacial

2. Figura Fundo

3. Equilíbrio Estático e Dinâmico

4. Cópia do Desenho

5. Práxis Postural

6. Coordenação Motora Bilateral

7. Práxis do Comando Verbal

8. Práxis Construcional

9. Nistagmo pós Rotatório

10. Precisão Motora

11. Práxis Seqüencial

12. Práxis Oral

13. Percepção Manual da Forma

14. Cinestesia

15. Identificação de dedos

16. Grafestesia

17. Localização dos Estímulos Táteis

 

Referências:

MAILLOUX,Z. AN Overview of the Sensory Integration and Práxis Test. The American Journal of Occupational Therapy, v44, n7, 1990.

BODISON, S., MAILLOUX,Z. The Sensory Integration and Práxis Tests: Illuminating Struggles and Stengths in Participation at School. OT Practice, v.11 n17, 2006.

INTERVENÇÃO

Intervenção baseada nos princípios de IS de Jean Ayres

Segundo Mailloux¹ a fidelidade aos preceitos básicos preconizados por Ayres, é essencial para assegurar que a intervenção seja realmente o que afirma ser. Embora possa parecer questão irrelevante, a ausência de lealdade aos elementos estruturais e processuais da Integração Sensorial de Ayres vem repercutindo em equívocos no âmbito da produção científica e possivelmente da prática clínica.

Desde 2013 vem sendo conduzidos, no Brasil, treinamentos™ da Medida de Fidelidade© da Intervenção de Integração Sensorial de Ayres® (ASI)² com objetivo de treinar especialistas para tornarem-se avaliadores da confiabilidade aos princípios desenvolvidos originalmente pela Dra. A. Jean Ayres.

        Os itens da Medida de Fidelidade da Intervenção de Integração Sensorial de Ayres são subdivididos em elementos estruturais e processuais nos quais se inclui:

        A formação do terapeuta é ponto essencial e sugere-se que seja feita uma pesquisa prévia sobre a os cursos realizados (carga horária), instituição, certificação e formação continuada do profissional que se nomeia como Terapeuta Especializado em Integração Sensorial.

Conhecer previamente o ambiente no qual a abordagem é conduzida, fornece informações sobre o nível de fidelidade aos preceitos da abordagem, bem como os aspectos de segurança que são primordiais nesta terapia. Tapetes, colchões, almofadas, avaliação sistemática dos equipamentos, entre outros são exemplos de vigilância nesta área.

        Os relatórios de avaliação devem conter as informações necessárias para compreensão da criança, razões do encaminhamento, metodologia de avaliação aplicada, resultados e objetivos de tratamento sob a ótica da teoria de Integração Sensorial.

        O espaço e equipamentos necessários para condução desta abordagem de tratamento sâo pontos centrais na medida em que é definitivamente impossível aplicar-se a abordagem, em sua essência, se não houver condições concretas para tal. Sala ampla, dispositivos para equipamentos suspensos (permitindo diferentes direções de movimentos), balanços, redes, skate/ rampa, câmeras de ar, lycra, cordas, almofadas e brinquedos diversos compõem o ambiente terapêutico.

        Explicitar a influência dos aspectos de Integração Sensorial no comportamento e desempenho da criança, e esclarecer sobre o tratamento em curso é responsabilidade do terapeuta sendo de extrema a importância a comunicação entre o terapeuta, os pais e professores.

        Em publicação de Parham et al., (2011) os autores apresentam a relação dos elementos  processuais que caracterizam a intervenção de IS de Ayres®. Fruto de estudos realizados desde 2003, estes elementos expressam o constructo da IS, nos moldes preconizados por Ayres. Identificar a presença destes elementos na intervenção diferencia entre a terapia que se diz de IS e aquela que realmente o é.

        Manipular os equipamentos adequadamente, prevenir acidentes e manter-se atenta, próxima a criança e, portanto, assegurar a segurança física da criança, por razões obvias, é o primeiro elemento da lista.

        Na medida em que esta abordagem tem como eixo central a oferta organizada de estímulos táteis, vestibulares e proprioceptivos a disponibilidade destes estímulos deve estar presente. Cabe ao terapeuta a correta manipulação dos mesmos, graduando intensidade, frequência e duração, de maneira a alcançar a melhora nas áreas do alerta, atenção e envolvimento na atividade.

        Atividades que estimulam o desenvolvimento das habilidades motoras caracterizam esta terapia. Neste sentido os componentes de controle postural, ocular, oral e integração bilateral são alvo da intervenção através de brincadeiras que demandam força, equilíbrio, dissociação de movimentos, controle do movimento segundo as variáveis de espaço e tempo que certamente resultam em melhora da motricidade ampla e fina.

        As habilidades de ideação, planejamento, sequenciamento e execução de atividades motoras novas que definem a práxis e requerem a organização do comportamento são metas da terapia. Isto significa que a execução de exercícios pré estabelecidos, roteiros antecipadamente estruturados ou definição exclusivamente por parte da terapeuta não configuram a terapia proposta por Ayres. Aqui reside talvez o maior desafio do terapeuta: como favorecer estas habilidades? Não se trata de deixar a criança “solta” ou esperar indefinidamente, até que ela “idealize” adequadamente e se mantenha numa brincadeira, que favoreça seu desenvolvimento. Afinal, se ela o fizesse provavelmente não precisaria da terapia. Nesta área se coloca o desafio do terapeuta de incentivar, apoiar, estimular, engajar, direcionar e contribuir positivamente para que ela efetivamente desenvolva suas habilidades.

Como explicitado acima as escolhas de atividades são compartilhadas entre a criança e a terapeuta. O poder da preparação prévia de todo o sistema (motivacional, intelectual, sensorial, perceptual e motor) quando a atividade é idealizada pela criança foi assinalado por Ayres e, portanto este aspecto também deverá estar presente na terapia. Contudo ter idéias plausíveis, considerando suas competências atuais e os aparatos externos não é tarefa fácil. Cabe ao terapeuta desenvolver habilidades para observar os interesses da criança, estruturar o ambiente e favorecer respostas adaptativas, de complexidade crescente, encorajando paulatinamente o auto-direcionamento.

A máxima: “desafio na medida certa” é palavra de ordem na terapia de IS. As manifestações verbais, gestuais, emocionais e/ou comportamentais da criança devem ser monitoradas ao longo da sessão para que eventuais ajustes sejam empreendidos quando necessário. Respostas adaptativas são a meta e para tal o terapeuta poderá lançar mão de modificações nos equipamentos, nas etapas da atividade, na brincadeira propriamente dita para que o desafio não seja pequeno, de forma que a criança desanime ou se entedie, ou tão grande que a criança se frustre. Neste sentido modificações são colocadas em pratica para que a criança seja bem sucedida nas atividades .

         Pelo exposto acima se pode inferir que na terapia de IS de Ayres a motivação intrínseca da criança para brincar é valorizada e peça central, na medida em que as habilidades da criança são estimuladas num contexto lúdico e prazeroso. O terapeuta utiliza diferentes recursos para criar uma atmosfera onde prevaleça a confiança e parceria na qual a criança se sinta motivada e valorizada.O terapeuta estabelece uma aliança terapêutica com a criança resultante da empatia, respeito, valorização e consideração das suas necessidades e peculiaridades.

        Esperamos que brevemente a atuação dos avaliadores da Medida de Fidelidade torne-se realidade, na medida em que a observância destes princípios é primordial, para o avanço consistente e adequado desta abordagem no Brasil. Neste ínterim, a divulgação deste conhecimento poderá instrumentalizar os terapeutas de IS, membros da equipe terapêutica e, acima de tudo clientes e familiares para o controle da qualidade do serviço prestado.

Bibliografia: Mailloux Z , 05/2013 Curitiba, Brasil Apostila de Treinamento da Medida de Fidelidade© da intervenção da Integração Sensorial de Ayres ®.

 

Parham ET.al., Fidelity in Sensory Integration Intervention Research AJOT March- april 2007, 61:216-27.

 

Parham et al., Development of a Fidelity Measure for Research on the Effectiveness of the Ayres Sensory Integration Intervention AJOT March- april 2011, 65 (2):133-42.

  • Facebook Basic Square

© 2016 by PRDESIGN